Opinião
Fabricando bacharéis, devendo médicos

Todos os jornais estamparam na segunda-feira o resultado da primeira edição do Enamed, prova anual criada para avaliar a formação médica no país. O resultado: dos 351 cursos avaliados, 107 receberam notas 1 e 2. Serão punidos. Trinta por cento. Três em cada dez. Quase um de três. Na Bahia, praticamente metade, 12 de 26 — um aqui perto, em Vitória da Conquista. Ontem, o CFM anunciou estudar medidas para impedir que 13 mil estudantes reprovados no exame obtenham o registro — ideia juridicamente questionável, mas digna de menção.
Tudo isso impressiona, porém não surpreende, pois a crise de formação, mais que fruto da mercantilização desenfreada do ensino e da leniência estatal na regulação dos cursos, é sintoma visível de uma patologia cultural.
As faculdades, por óbvio, têm muita culpa, mas o problema é anterior à sala de aula; é antropológico. Em um país de carências profundas, a medicina ainda conserva uma aura mística. O médico, sobretudo nos rincões do interior, encarna uma versão moderna do pajé, detentor de um saber hermético e de um poder quase taumatúrgico.
Ao mesmo tempo, há uma carência de símbolos de autoridade no inconsciente coletivo, herança da mentalidade bacharelesca luso-colonial, que prioriza a liturgia do cargo e o título, mesmo imerecido (“doutor” sem doutorado), em detrimento do saber real.
Se o prestígio precede a competência, disso decorre que, para expressiva parcela, o domínio da técnica torna-se não uma necessidade, mas um obstáculo a ser contornado, um mero detalhe incômodo, desnecessário até, pois o jaleco — por si só — já garante a consagração social e, por consequência, certa reserva de mercado.
O resultado, então, não é surpresa. Aliás, enquanto essa lógica perdurar, o sistema educacional, por mais investimentos que receba (e necessita, de fato, receber), continuará operando a mesma linha de montagem: fabricando bacharéis, mas devendo médicos.