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Editorial

Teto de R$ 700 mil para cachês de artistas oficializa o absurdo

Reprodução

A proposta de um teto de 700 mil reais por contrato artístico no São João, apresentada ontem por prefeitos baianos sob o verniz da austeridade, é uma escandalosa concessão ao absurdo. Fixar um limite linear nesse patamar não corrige distorções; pelo contrário, legitima a gastança e chancela o desequilíbrio fiscal em favor de um entretenimento efêmero.

Não nos parece admissível, sob nenhum prisma, que municípios pequenos e médios, dependentes de repasses para custear a própria folha, desembolsem mais de meio milhão por uma apresentação musical de noventa minutos. A própria naturalização social desses números indica uma completa perda do senso de proporções.

O argumento de que “o mercado dita o preço” não pode subsistir quando o comprador é um ente estatal com prioridades constitucionais a zelar. Se o investimento operacional é alto, ou se o profissional alcançou patamar que exige centenas de milhares de reais por hora de trabalho, cabe à iniciativa privada — e apenas a ela — viabilizar esse custo. O dinheiro público não pode servir de trampolim para o lucro astronômico de agenciadores e estrelas à custa de carências prementes da coletividade.

A responsabilidade, porém, não recai apenas sobre a caneta do gestor público. Há conivência, por vezes clamor, de parcela considerável da população, que, sob o manto retórico do fomento ao lazer e ao turismo (sem lastro em retorno econômico comprovado), exige o “show do momento” com o mesmo vigor com que deveria cobrar a expansão de serviços médicos e vagas em creches.

A propósito, priorizar artistas unicamente pela projeção midiática momentânea, sem que seus repertórios dialoguem minimamente com a identidade histórica dos festejos, não é valorizar a cultura junina; é transformar celebrações típicas locais em cópias genéricas dos grandes festivais metropolitanos.

Sob pena de sacrificar o essencial em nome do acessório, o debate sobre o teto de gastos precisa de mais rigor e menos marketing. Estabelecer um limite genérico quase milionário oficializa o descalabro. O São João é, sim, um patrimônio a ser preservado, mas não pode continuar servindo de ralo para as finanças municipais.

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