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Opinião

O verdadeiro herói do 16 de setembro

Ao comemorarmos o centésimo quadragésimo terceiro aniversário da publicação da Lei provincial n° 1.849, de 16 de setembro de 1878, pela qual foi elevada à categoria de Vila, a freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo, com a denominação de Industrial Vila de Água Quente, até então, pertencente à Comarca de Minas do Rio de Contas, na província da Bahia, trago ao conhecimento público, de forma inédita, especificamente aos diletos conterrâneos de Paramirim e Érico Cardoso, a figura do verdadeiro herói dessa epopeia, infelizmente pouco lembrado, nunca homenageado pelas atuais gerações de ambos os municípios, mas de fato, um protagonista de primeira grandeza.

Refiro-me com muita firmeza ao ilustre Cônego João Paranhos da Silva, nascido por volta de 1834, na cidade de Cachoeira, província da Bahia, onde se sagrou sacerdote, filho de José Joaquim Paranhos e Angelica Carolina do Amor-Divino. Sua trajetória, após receber a consagração, foi a de se embrenhar pelo sertão para pregar os princípios básicos da religião católica, fazendo por merecer, em agosto de 1877, as honras de Cônego da Catedral Metropolitana, de Salvador, pelos relevantes serviços prestados à igreja, após 12 anos de intensa vida sacerdotal, longe da família e da terra natal.

Por decreto de 31 de maio de 1865, o padre João Paranhos da Silva assume a freguesia de São Sebastião do Sincorá, criada em 3 de novembro de 1783. Durante o período em que a paroquiou, por mais de seis anos consecutivos, em um determinado momento entrou em desacordo com alguns moradores, por ser a sede de sua paroquia um lugar ermo e desassistido, buscou transferi-la para uma outra povoação, fato que direta ou indiretamente influenciou a sua remoção para a paróquia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo, para a qual foi apresentado por carta imperial de 21 de junho de 1871, após ter sido a mesma posta em concurso em consequência do falecimento do seu vigário anterior João Nepomuceno Villas-Boas, ocorrido, provavelmente, em 1868.

Assim sendo, em meados de 1871, ano de muita penúria no sertão da Bahia, provocada por sucessivas secas, vamos encontrá-lo paroquiano a histórica freguesia de Nossa Senhora do Carmo, período em que Água Quente (hoje, Érico Cardoso) era uma singela povoação composta de duas ou três casas, como ele próprio afirma em uma de suas correspondências, nascida nas terras do Cel. Liberato José da Silva, mais tarde seu grande inimigo político e pessoal.

Enquanto isso, o antigo arraial do Ribeiro, oficialmente denominado Santo Antônio de Paramirim, fruto da antiga fazenda do Arrayal, outra coisa não era senão também uma simples povoação, com menos projeção até, onde habitavam poucas almas em um punhado de casas, vivendo da agricultura, desassistida, sem escola pública, tudo girando em torno de sua capela, dedicada a Santo Antônio, fundada ao raiar do século XIX, pelo abastado Capitão Antônio Ribeiro de Magalhães, a quem se atribui a fundação da cidade de Paramirim. Um arraial, portanto, muito distante, de conhecer o episódio do 16 de setembro, hoje controvertidamente comemorado como data de sua emancipação política. Um fato controvertido, polêmico, convencionalmente histórico sim, mas não oficial por falta de sustentação legal, conforme precisa ser visto e comemorado.

Mas qual foi mesmo a participação do Cônego Paranhos no processo emancipativo de Água Quente e de Paramirim, para tomá-lo como herói de um episódio que atravessou os tempos sem a devida definição. Afirmo, tudo que se poderia fazer para elevar uma freguesia à categoria de vila, foi feito por ele, seguindo os trâmites legais da época. Tudo, repito, ele fez praticamente sozinho. E o fez com muito empenho, ardor, quase que como uma devoção.

Muito jovem ainda e com o sangue da política nas veias, desde os tempos da freguesia do Sincorá, onde foi membro do Conselho, militante incondicional do Partido Conservador, como a maioria dos vigários de sua época, João Paranhos estreia na política de Água Quente como candidato a deputado provincial no pleito de 20 de fevereiro de 1876, se elegendo com boa margem de votos pelo 5° distrito eleitoral, do qual fazia parte a freguesia de Nossa Senhora do Carmo do Morro do Fogo. Após as averiguações de praxe foi proclamado eleito e empossado na sessão legislativa de 27 de abril do mesmo ano juntamente com outros famosos, dentre eles, Dr. Joaquim Manoel Rodrigues Lima, eleito mais tarde governador da Bahia (1892-1896), Dr. Marcolino de Moura e Albuquerque, (natural de Piatã), herói da Guerra do Paraguai e o Dr. Aristides César Spínola Zama, médico caetiteense, deputado Federal pela Constituinte Nacional de 1891, no Rio de Janeiro, todos nacionalmente conhecidos e reconhecidos.

Foi com o status de Deputado Provincial, legitimado e consagrado pelo eleitorado do seu distrito e também como vigário colado, que o Cônego Paranhos, como era mais conhecido nos meios políticos da Bahia, sem nenhuma perda de tempo, buscou realizar um sonho acalentado por ele e os seus paroquianos, quiçá uma promessa de campanha de real envergadura, cuja oportunidade para concretizá-lo não poderia ser em hipótese alguma desperdiçada. Tanto sonhou, como articulou todos os meios possíveis para viabilizá-lo de forma plena e completa. Tanto fez e lutou que a 7 de março de 1877, a presidência da Assembleia Legislativa Provincial da Bahia viu chegar à sua Mesa o audacioso projeto de Lei de sua autoria, esculpido com muito esmero, corroborado pelos colegas Otávio Goes, Costa Pinto e César Zama reivindicando a criação da Vila de Água Quente, num momento de grande efervescência política na província da Bahia, por conta das campanhas abolicionistas pregadas pelos liberais.

Não foi tarefa fácil, aguentar a morosidade de sua tramitação na assembleia. Sessões e mais sessões consumidas, discussões, questionamentos, parecer, debates e emendas, votos favoráveis e contra, muitas viagens do vigário à capital em busca de uma palavra ou de um veredicto. Finalmente a sua aprovação na nonagésima primeira sessão ordinária da Assembleia Legislativa Provincial da Bahia, em 9 de setembro de 1878 e a 16 desse mesmo mês e ano a chancela do Barão Homem de Melo, Presidente da Província, que a mandou publicar e cumprir.

Muita euforia sim, tranquilidade para o vigário Paranhos, seus adeptos e paroquianos, não. A aprovação da Lei 1849 pisou nos calos do Cel. Liberato, o poderoso chefão do Partido Liberal, insatisfeito com a vitória do Cônego, buscou a todo custo turbar-lhe os planos. Seu Liberato colocou o dedo no suspiro, arregimentou suas forças no interior e na capital e disse: “essa vila não se instala nem esse frade pisa no meu poder”. A vila não foi investida nas suas funções e a dita lei cujo nascimento hoje comemoramos, foi revogada por uma simples resolução (2.175), em 20 de junho de 1881, derrubando o proposito do Cônego Paranhos.

Eis aí, pois, caros conterrâneos, o que de fato comemoramos hoje. Uma lei criada e sancionada, sim, mas revogada três anos depois.  Uma vila sonhada e criada, mas não investida em suas prerrogativas. Sem conselho e sem intendente nomeados. Triste história. Muito mais triste e decepcionante para o ilustre vigário que viu o seu sonho dissipado. Muito mais triste para um sacerdote pregador da paz e da concórdia que muito fez por sua paróquia e não foi reconhecido pela posteridade. Um homem perseguido, sim, pela fúria e a insanidade de um coronel que a todo custo queria vê-lo distante de sua paróquia. Um vigário ofendido, magoado e ameaçado de morte por um chefe político que se dizia dono de Água Quente, dono de suas terras, por conta de um autoritarismo sem precedente.

Como toda peça tem a sua apoteose, a saga do Padre Paranhos também teve a sua. Após a Proclamação da República, o município de Água Quente volta a ser criado definitivamente pelo ato de 24 de março de 1890, não para reparar o erro do passado, mas para mostrar ao mundo que o protecionismo dos coronéis do Império e da Guarda Nacional estava chegando ao fim. Depois disso, o Coronel Antônio José Cardoso é nomeado seu intendente e o padre Paranhos, pelos seus méritos e esforços, o presidente do seu Conselho, ao lado de outros pares. A justiça raiava nos horizontes da histórica freguesia do Morro.

Enfim, como na vida tudo passa, os dois rivais de Água Quente, o herói e o vilão também passaram. O coronel Liberato José da Silva faleceu em 8 de fevereiro de 1901 e o dinâmico sacerdote João Paranhos da Silva, o primeiro vigário da freguesia do Morro do Fogo a receber as honras de Cônego, o paladino da história que hoje comemoramos aleatoriamente, ao seguir viagem para a capital da Bahia para tratamento de uma grave enfermidade, dentro de uma rede, é tolhido de surpresa pela morte, próximo à Vila Velha, hoje, a portentosa cidade de Livramento de Nossa Senhora, em 30 de janeiro de 1902. Foi sepultado no Cemitério Senhor do Bonfim e posteriormente teve seus restos mortais transladados para sua igreja paroquial, palco de suas fecundas celebrações. Sobre o mármore da sua morada derradeira, apenas uma frase: “Saudosa lembrança. Dor! Uma prece de lágrimas”.

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